27 junho, 2021

Perder-se no Caminho

 

Foto do ensaio realizado em Paranapiacaba onde "encarnei" a Mórrígan


Já faz algum tempo que não escrevo por aqui. Hoje bateu saudade de abrir meu coração. Falar um pouco sobre como me sinto e como ando. 

Bem, como diz o título, gostaria de falar um pouco sobre perder-se no caminho. No caminho espiritual mesmo. Esse tema me surgiu após eu mesma me perder várias vezes. Afinal, trilhar um caminho espiritual não é nada fácil. Envolve muitas questões. Inclusive questões emocionais. 

Quantas vezes vocês já se sentiram perdidos? Com a sensação de que tudo que está fazendo é em vão? Se sentindo sozinho na caminhada? Eu já perdi as contas de quantas vezes me senti assim. Mas algo que pude aprender de tudo isso, é que nunca estamos sozinhos, mesmo que pareça. Às vezes, os Deuses nos pregam peças, mas não em vão, sempre há um propósito e muitas vezes esse propósito é nos ajudar a crescer. Nos ajudar a ver as verdades que sozinhos não conseguimos. Às vezes as coisas estão acontecendo bem debaixo de nossos narizes, e ainda assim não conseguimos enxergar pois estamos preocupados com os problemas e não com as soluções. Eu mesma muitas vezes estive nessa posição: focada nas dores, pensando apenas no que estava me ferindo e me esquecendo totalmente de olhar para a cura. 

Mas isso é compreensível, afinal de contas, às vezes a gente simplesmente cansa. Às vezes a luta é pesada demais para conseguirmos nos manter em pé sem bambear. E tá tudo bem quando isso acontece. Não dá pra ser forte o tempo todo, e certamente os Deuses entendem isso, mesmo que não tenham esse monte de carne e osso que é um fardo pesado de carregar. Muitas vezes a gente só quer sentar e chorar e sentir aquela dor abissal que invade a nossa alma. Muitas vezes é só isso que nos resta. E é nessas horas que os Deuses observam. Em silêncio. Com muita calma e paciência o momento certo de agirem, ou simplesmente respeitam a nossa dor e esperam que a gente dê o primeiro passo, que é se abrir novamente à Eles.

Tá tudo bem se perder, desde que sejamos capazes de nos encontrar novamente. E isso pode ser bastante difícil quando estamos ofuscados pela dor ou pela confusão. O que fazer então para se encontrar de novo? O que fazer para juntar os cacos que fomos deixando pelo caminho? Já tive momentos que eu não sabia responder essa pergunta. Das vezes que me perdi, muitas delas eu esperava que algum milagre acontecesse, que uma resposta caísse do céu ou que simplesmente eu ouvisse a voz dos Deuses me dizendo o que fazer...e isso nunca acontecia. Quanto mais eu pedia, mais silêncio eu recebia. Quanto mais eu chorava, mais vazio tudo ficava. E eu não conseguia entender porque os Deuses haviam me abandonado, pois era assim que eu me sentia. 

Bem, a experiência me mostrou que é necessário respeitar esses nossos momentos. Chorar tudo que tiver de chorar. Colocar pra fora tudo que tiver nos sufocando. Gritar tudo que precisar gritar. Cair quantas vezes for necessário. Pois, aquele velho ditado de que após a tempestade o sol brilhará é verdade. Nenhuma tempestade dura para sempre. E os Deuses ficam em silêncio muitas vezes porque Eles respeitam esse momento. São coisas que precisamos passar. Há lições que precisamos aprender sozinhos e isso machuca, mas nos faz crescer. Então, se você que está lendo isso estiver passando por um momento desse, apenas respeite-se. Sinta tudo que tiver de sentir. Mas saiba, tenha a plena certeza de que os Deuses não se afastaram, Eles estão ali, observando. Permita-se experienciar o que tiver que experienciar. E quando se sentir pronto, abra novamente os véus e continue a sua jornada, e se você se perder novamente, tenha em mente que o poder de se encontrar novamente estará em suas mãos no seu tempo, no seu momento. 

Perder-se faz parte da Jornada.  





12 junho, 2020

4 anos e 30 Dias druídicos


Foto tirada em Bertioga


Há 4 anos atrás eu fiz uma série de postagens aqui no blog intitulada "30 Dias Druídicos". Para quem quiser ler, basta procurar no menu.
Na época foi uma experiência muito interessante e desafiadora, pois todos os dias eu precisava escrever um texto sobre um assunto diferente. Foi uma tarefa difícil, mas consegui concluir.

Hoje, em 2020, no meio de uma pandemia mundial, eu me incumbi a tarefa de refazer esses dias em vídeo, lá no canal do YouTube (se você ainda não for inscrito, corre lá e se inscreve para dar uma força e ficar sabendo quando tiver vídeos novos). E não está sendo uma tarefa fácil, pois pra quem me conhece sabe que sou uma pessoa introvertida e me comunico muito melhor através da escrita. Refazer esses dias também está sendo uma experiência de novos aprendizados, um novo mergulho interno, uma oportunidade de ver como eu amadureci como pessoa e como passei por tantas coisas de lá pra cá.

No meio desses 4 anos eu já surtei, já perdi amizades, já fiz novas amizades, já escrevi textão desabafando, já me afastei da comunidade Druídica, já me reaproximei da comunidade Druídica, exclui canal, refiz canal. Já enterrei o Chamado de Morrigan e já o ressuscitei. Já chorei, já ri, já perdi a fé, já reencontrei a fé, já questionei, já encontrei respostas. Já quis morrer, já quis sumir, já quis largar tudo, já quis esquecer os Deuses, já tive muitas crises. Entrei pra terapia. 

É complexo estar na pele humana. Somos um turbilhão de sentimentos e pensamentos que mudam a todo momento. Refazer os 30 dias está sendo uma experiência de mergulho no passado e no presente ao mesmo tempo, e está me permitindo ver coisas sobre mim que eu não via antes. Mas que bom que sempre temos uma nova chance de consertar algumas coisas, enquanto que outras infelizmente se perderam pra sempre. 

Enfim, para quem quiser acompanhar os novos 30 Dias Druídicos, vou deixar aqui embaixo o link para a playlist no YouTube, ainda não está completa, está em construção e vou atualizando a cada novo vídeo. Espero que gostem!




BODUOGENA


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A violação de direitos autorais é crime: Lei Federal n° 9.610, de 19.02.98

06 junho, 2020

Encontro com Rhiannon

Calendário Pagão: 13 de Junho - Deusa Epona
Imagem retirada do Google


Eu estava deitada na grama, de barriga pra cima, quando fui engolida pela terra. Enquanto eu era puxada para baixo, pude sentir o cheiro da vida que habita as profundezas da terra. Quando finalmente parei de descer, cheguei numa caverna subterrânea. Ali era úmido e aconchegante e uma mulher já me esperava. Era Rhiannon. A princípio, ela não me permitiu ver seu rosto. Apenas seu corpo nu. Ela me estendeu a mão e na mesma hora nos transformamos em cavalos. Fomos caminhando pela caverna, até sairmos no alto de uma colina. Dali eu já pude avistar o mar.

Galopamos até a beira da praia, e imediatamente a questionei: "Vamos entrar no mar em forma de cavalo? Eu vou afundar e morrer." Ela toda ousada sequer me deu ouvidos e continuou avançado mar a dentro. Com toda compostura, ela trotava sobre as águas e eu numa tentativa assustada de segui-la, comecei a afundar cada vez mais. O mar estava muito agitado e com ondas gigantescas, aquilo me deixou com o coração disparado de medo e novamente tentei falar: "Eu vou morrer. Estou afundando e não vou conseguir avançar. Estou com medo!" Ela simplesmente olhou pra mim e respondeu: "Eu conheço os seus medos. Apenas venha, você vai conseguir." Então, olhando para aquelas ondas de sei lá quantos metros de altura, me forcei a seguir em frente. Aos poucos comecei a emergir da água, até conseguir alcançá-la. Quando finalmente consegui ficar sobre as águas e ao lado dEla, o tempo ficou bom, o mar se acalmou, o sol brilhou e voltamos às nossas formas de mulher.

Estávamos ali, no meio do mar, montadas cada uma em um cavalo. Quando olhei na direção de Rhiannon, eu vi uma das cenas mais lindas de toda a minha vida. Finalmente ela me permitiu ver o seu rosto. Me permitiu ver com detalhes as suas feições. O brilho de seu rosto e de seus cabelos. Olhar pra Ela, foi como uma sensação de reencontro. As lágrimas escorreram pelo meu rosto de forma incessante. Ela então disse: "bem vinda ao meu Mundo, me deixe cuidar de você! Não permita que te silenciem como me silenciaram. Não assista a sua vida passar sem tomar uma atitude como eu fiz. A única aceitação que você precisa é a sua própria. Perdoe seu passado e siga em frente, fazendo hoje o seu melhor sem mendigar aprovação de quem não merece."

Ao fundo, uma canção entoada por uma lebre encantada, começou a me levar mais fundo em minha viagem. Rhiannon segurou firme em minhas mãos e pulamos juntas no mar. No instante seguinte estávamos num local escuro, úmido e aconchegante. Era como um útero gigante. Rhiannon ainda nua e completamente confortável com a situação, começou a me despir também. Tirou peça por peça e disse: "Chegou a hora de você se despir das mentiras que contou para si mesma. Esse é o momento de encontrar a sua própria verdade e a sua Soberania". Então com aquela canção me embalando, Rhiannon começou a me lavar da cabeça aos pés. Eram águas que traziam cura para a minha alma. Parecia uma mãe cuidando de uma filha debilitada pelas incansáveis guerras. Eu estava totalmente entregue e Ela me envolveu em seus braços, me dando colo. Me dando amor. Me dando todo o suporte que eu precisava pra seguir adiante: "Estou com você. Você não precisa fazer isso sozinha. O processo não precisa ser solitário". Eu chorei como um bebê que acabara de nascer. As lágrimas desceram não somente dos meus olhos, mas também da minha alma. Naquele momento eu soube que acabara de ganhar uma aliada. 

Então chegou o momento da despedida. Como doeu. Eu não queria sair daquele local seguro. Eu não queria que aquele abraço terminasse. Eu não queria ter que voltar para a realidade. Mas então, entendi que tudo aquilo também é parte da minha realidade. Eu iria voltar para o meu mundo com o coração mais quente e com a certeza que Rhiannon agora faz parte da minha Jornada.  O amor e o acolhimento que Ela me deu, foi trazido para o meu mundo, pois mesmo após a Jornada se encerrar, as lágrimas ainda desciam abundantes dos meus olhos.

Essa experiência foi possível através da druidesa Máh Buadach, que lindamente vem conduzindo um trabalho chamado "Espiral das Deusas Celtas". Eu não tenho nem palavras para agradecer por tudo isso. Peço as Deusas que abençoem as suas mãos cada vez mais e que mais mulheres tenham encontros maravilhosos como esse.

Salve a força das Deusas Celtas, que Elas sejam lembradas e honradas para sempre /|\


BODUOGENA


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23 abril, 2020

Encontro com Blodeuwedd

Imagem de Wendy Andrew
Eu fechei os meus olhos e senti a grama fresca envolvendo meu corpo. O sol ameno do Outono acariciava o meu rosto, enquanto o agradável aroma de muitas flores embalavam as minhas narinas. Eu atravessei o portal e cheguei ao Outro Mundo ao som de um cântico ancestral, tão suave que quase não percebi que já estava sendo recebida por flores feéricas.

Muitas flores começaram a brotar de todas as partes do meu corpo. De todos os tipos: rosas amarelas, brancas e brilhantes. Lírios, calêndulas, camomilas, e muitas flores que nunca vi pelas bandas de cá. Aquele desabrochar era agradável. Como se todas elas já fizessem parte de mim e ali, naquele pedaço de paraíso, elas pudessem se mostrar livremente.

Cheia de alegria e paz, me levantei. Estava de pés descalços, um vestido branco, o mais confortável que já vesti, e pude apreciar uma paisagem impecável. Um campo interminável de muitas flores, de todas as cores, tamanhos e aromas. Próximo desse imenso campo, havia um lago cristalino e muito convidativo. Então, sem muitos rodeios, meus olhos rapidamente encontraram com os olhos dEela.

Blodeuwedd estava parada na beira do lago. Imponente, serena e convidativa. Olhos de coruja, profundos e cheios de ancestralidade. Vestia um robe azul-lilás, seu corpo era feito de muitas flores, e elas se movimentavam em espirais. Seu rosto era indecifrável, só havia flores em espirais e um par de olhos. Ah... aqueles olhos.

Me aproximei dela, e fui recebida de forma muito agradável. Suas mãos seguraram forte as minhas, e começamos uma caminhada à beira-lago. Ali conversamos. Começamos a correr. Ela me desafiava. Me fazia gerar movimento. Me fazia sair do meu conforto. Sem se virar para mim ela disse: "Tá esperando o que pra voar?"

Então, rapidamente ela se transformou numa bela Suindara e eu fui transformada numa coruja marrom. Aquela transformação doeu, mas não tanto quanto a pergunta feita. Ela voou montanhas acima, e eu, completamente desajeitada pela recém transformação, comecei a perceber que voar era muito bom. E certamente gostaria de fazer isso com mais frequência.

Chegamos ao topo de uma montanha. Parecia ser a montanha mais alta do mundo. Tomamos novamente nossas formas "humanas" e sentamos lado a lado em uma pedra, na beira da montanha. Por um tempo fiquei observando a beleza daquele lugar. Dali eu podia ver o mundo inteiro. Dali eu podia ver o passado, o presente e o futuro. Naquele lugar eu era capaz de sentir o Mar, a Terra e o Céu. Dali eu sentia a força de ser quem eu sou. Dali eu senti que poderia fazer qualquer coisa. Percebi então, que todas as possibilidades estavam à minha frente, bastava eu voar mais alto.

Naquele lugar sagrado ouvi respostas que eu procurava por anos. Blodeuwedd simplesmente lavou a minha alma com todas as coisas que eu precisava ouvir.

Então, o tambor começou a me chamar de volta pra casa. Novamente nos transformamos em corujas e voltamos à beira do lago. Nos despedimos com a sensação de que outros encontros acontecerão. Ali nasceu uma amizade. As flores de Blodeuwedd foram plantadas no jardim da minha vida e a partir daquele momento, tive a certeza que minha caminhada será mais sábia, perfumada, com alguns espinhos sim mas também com muitos aprendizados.
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Esse texto foi escrito baseado na experiência de Jornada que tive durante o workshop online "Espiral das Deusas Celtas", idealizado pela Máh Búadach, druidesa da Tribo do Caldeirão das Ondas em Salvador. Esse workshop foi focado em Blodeuwedd. Pra quem tiver interesse de conhecer melhor esse trabalho, acompanhe ela nas Redes Sociais. O próximo será com a deusa Cerridwen, e eu com certeza não perderei. Em breve volto ao Blog para relatar meu encontro com a senhora do Caldeirão.

Salve a força das Deusas Celtas, que Elas sejam lembradas e honradas para sempre /|\


Ao som de: Ride On - Cruachan



BODUOGENA


~~ Atenção ~~ 

A violação de direitos autorais é crime: Lei Federal n° 9.610, de 19.02.98


15 março, 2019

Tradução: Então você quer cultuar Morrigan

Imagem retirada do Pinterest

Fonte: “So you want to worship the Morrígan”, por Marjorie Ní Chobhthaigh em seu blog “Bean Chaointe”. Disponível em: <https://beanchaointe.wordpress.com/2018/08/27/so-you-want-to-worship-the-morrigan/>. Acesso em: 02 de março de 2019.
Tradução livre por Juliana Boduogena.